sábado, 15 de janeiro de 2011

Masturbação

 Na antiguidade, a masturbação era considerada uma forma aceita de obter prazer, embora os greco-romanos a desestimulassem até a idade de 21 anos. No Egito, a religião descrevia a criação do mundo pela masturbação do deus Atum, e muitas mulheres eram enterradas mumificadas com os objetos fálicos que se masturbavam.
Entretanto, a condenação bíblica à masturbação perdurou por milênios. A lei religiosa judaica impunha que os homens fossem produtivos e se multiplicassem. Portanto, o coitus interruptus não era admitido como técnica contraceptiva e o termo onanismo que lhe foi atribuído ficou associado também ao prazer solitário. Pelo costume antigo dos judeus, quando uma mulher contraía matrimônio, estava casada com o marido e com toda a família dele. Ela havia sido comprada e paga. Se ela não tivesse lhe dado filhos, o marido ao morrer desaparecia como se jamais tivesse vivido. O casamento por levirato era a solução. Se um irmão mais velho morria sem deixar herdeiro, cabia ao irmão mais novo a responsabilidade de tomar a viúva como esposa e criar o primeiro filho nascido de ambos como um filho legítimo do morto. No Gênese (38:6-10) vemos a rebeldia de Onan: “Judá tomou para seu primogênito Er uma mulher, a qual se chamava Tamar. Ora, Er o primogênito de Judá, era um homem maus aos olhos do Senhor, assim, o Senhor o matou. Disse Judá a Onan: ‘Vai até a mulher do seu irmão, toma-a e dá sucessão a teu irmão!’ Onan, sabendo que essa posteridade não seria sua, sempre que se unia á mulher de seu irmão deixava cair o sêmen no chão para que não desse sucessão a seu irmão. O que ela fazia era mau aos olhos do Senhor, que matou também a ele.”
A masturbação foi, então, punida, com a morte. Não é de se estranhar que durante muito tempo que se acreditou que a masturbação causava ataques epiléticos, loucura, reumatismo, impotência, acne, asma, idiotice, cegueira e até crescimento de pêlos nas palmas das mãos. Muitos adolescentes hoje não têm a certeza de que não sofrerão nenhum tipo de prejuízo pela atividade masturbatória, já que a idéia de pecado ainda está presente provocando culpa e medo.
Na Idade média, a ejaculação do homem só devia ocorrer com a finalidade de procriação, e na Inquisição o acusado de masturbação era considerado herege, podendo ser condenado à morte na fogueira. Para os padres dessa época, a masturbação era produto do demônio.
A partir do período entre as duas guerras, provavelmente sob a influência das teorias de Freud sobre a sexualidade infantil, alguns militam em favor da educação sexual e estabelece-se um consenso em considerar a masturbação normal durante a infância e a adolescência. Com o crescimento da sexologia, a masturbação torna-se um hábito desejável para os jovens. Os adolescentes que não conheceram essa etapa para o amadurecimento que, é a masturbação, quando chegam a idade adulta passam por muito mais dificuldades que os outros. A medida dessa evolução é indicada pela revista Vital, que afirma; “os biólogos se esforçam em descobrir as leis do prazer sexual (...). Seja por corpúsculos da voluptuosidade das zonas erógenas primárias ou pelas morfinas fabricadas pelo cérebro, está provado que o prazer não é um pecado na civilização, mas uma realidade inscrita no corpo”. Jean –Rene vê na masturbação uma tripla função: fisiológica, compensatória e lúdica, resumindo assim a opinião comum dos sexólogos.
A masturbação na infância é importante, já que equivale à auto-exploração do corpo, mas muitos não aceitam isso com neutralidade. O peso de tantos anos da masturbação associada ao pecado e à doença leva muitos pais -  até os que se consideram livres de preconceitos – a se sentirem incomodados quando os filhos manipulam seus próprios órgãos sexuais, e geralmente procuram desviar a atenção da criança para outros interesses, o que de qualquer maneira deixa nela o registro de que essas atividades não é bem aceita.
Na puberdade, o desejo sexual é muito intenso tanto no menino quanto na menina. Como existe mais permissividade para toda expressão sexual masculina, a masturbação do menino é bem mais aceita do que a da menina. Em um estudo sobre a sexualidade adolescente feito em 1981, 80% dos meninos e 59% das meninas de 18 anos afirmaram se masturbar; em razão disso, algumas mães exigiam que suas filhas dormissem com os braços para fora das cobertas para evitar a masturbação. Entretanto, a masturbação na adolescência é vista pelos sexólogos como uma prática fundamental pela satisfação sexual na vida adulta, por permitir um auto conhecimento do corpo, do prazer e das emoções. “As adolescentes femininas que se iniciam na masturbação também apresentam o orgasmo clitoridiano, sendo isso um sinal de evolução sexual sadia. Mulheres multi orgásticas investigadas na nossa clínica normalmente iniciavam a masturbação antes do casamento e durante a adolescência.
Mas muitas mulheres se sentem envergonhadas e culpadas devido a uma educação que lhes ensina que o interesse e o desejo sexual pertencem ao sexo masculino. Ao não conseguirem controlar seus próprios desejos, muitas se sentem indignas, imaginando que só elas se masturbam, e não contam nem para a melhor amiga. As mulheres que conseguem romper com esses tabus muitas vezes utilizam variados objetos para se masturbar, estimulando a vulva ou a vagina. São vibradores, pênis artificiais, bolas ben-wa e outros, vendidos em sex-shops, além do cabo da escova de cabelo, ou mesmo legumes e outros objetos macios.
Barry Mc Carthy afirma em seu livro sobre a sexualidade masculina que, devido às advertências que todos recebem desde crianças e devido à reputação que a masturbação tem de pobre substituto das relações sexuais, a maioria das pessoas se sente culpada quando se masturba. Contudo, isso não impede que todos se masturbem. A prova é que 95% dos homens, incluindo os casados, masturbam-se. Mas a culpa impede que se desfrute o máximo, não permitindo que a masturbação seja a experiência libertadora e satisfatória que ela pode ser. Há uma insistência em afirmar que essa prática tem uma única finalidade: aliviar a tensão acumulada. Então, o ato é feito ás pressas. Quase ninguém se concede a oportunidade de perceber que a masturbação, longe de ser vergonhosa necessidade, é na verdade uma das melhores maneiras possíveis de se aprender sobre as próprias reações sexuais e de se aumentar a sensibilidade à estimulação sexual. Por essa razão, ele recomenda uma masturbação lenta, sensual e envolvendo o corpo todo.
Na terapia do sexo para o tratamento das disfunções orgásticas, a masturbação é o elemento principal para capacitar a mulher  a ter o primeiro orgasmo. A instrução de que a mulher se masturbe quase sempre gera ansiedade nas pacientes que aprenderam a considerar a masturbação algo perigoso e vergonhoso. A psicoterapia paralela se propõe tratar desses preconceitos, enquanto ela é aconselhada, em condições de muita segurança, a emprenhar-se nessa atividade. Sugere-se, por exemplo, que ela se masturbe manualmente, mas se a princípio, a paciente deve masturbar-se manualmente, mas se a estimulação assim produzida não for suficientemente intensa para ter orgasmo, é aconselhada a usar um vibrador.
Em seu estudo sobre a sexualidade feminina, Shere Hite constata que a masturbação tem aspectos favoráveis – orgasmos fáceis e intensos, fonte inesgotável de prazer – mas, infelizmente, todos sofremos alguma influência de uma cultura que nos diz que as pessoas não devem se masturbar. Atualmente, tornou-se aceitável que as mulheres tenham prazer no sexo, desde que preencham seus papéis femininos – dando prazer aos homens e nunca tendo prazer sozinhas. Hite acredita que talvez no futuro as mulheres possam ter o direito de ter prazer na masturbação também, como declarou uma de suas entrevistadas: “A importância da masturbação é que se masturbando você se ama e cuida de si mesma totalmente, numa forma natural de relacionamento com seu próprio corpo. È uma atividade normal que deveria logicamente fazer parte da vida de qualquer mulher.”
No estudo de Hite sobre a sexualidade masculina, em que, foram entrevistados 7239 homens entre 13 e 97 anos de idade, 99% declararam que se masturbando, sendo que quase todos, casados ou solteiros, tendo ou não uma vida sexual ativa, disseram que a masturbação era algi constante em suas vidas. Mas a maioria se sente culpada e incerta sobre a masturbação, ao mesmo tempo que gosta imensamente -  muitos têm seus orgasmos mais fortes, fisicamente, durante a masturbação. Os homens se sentem mais livres para se estimular da maneira que gostam e quase nenhum conta a outras pessoas que faz isso. Muitos homens, declaram que os orgasmos durante a masturbação eram fisicamente mais intensos, já que não havia pressões de desempenho, e eles tinham liberdade de se dar exatamente a estimulação adequada.
Hite conclui que a masturbação é uma atividade sexual muito importante e válida. Os homens falaram dela com entusiasmo e descreveram os intensos orgasmos experimentados. Com a masturbação, eles conseguem a estimulação que geralmente não obtêm de outra pessoa, como a anal, nos testículos e, talvez, também uma estimulação emocional ou psicológica. Na medida em que aos homens só é permitido um papel na relação, as fantasias criadas na masturbação podem ser uma maneira de desfrutar outro papel, a parte que falta. Ser completamente passivo.

Fonte:

Lins, R. N. A Cama na Varanda: arejando novas idéias a respeito de amor e sexo.Novas tendências.ed rev e ampliada.Rio de Janeiro:BestSeller, 2007;360-368.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Tabus e Crendices Sexuais

O conceito de tabu encerra duas noções fundamentais: a idéia do proibido e a sanção para o transgressor.
As restrições do tabu são muito diferentes das proibições religiosas, uma vez que não emenam de um ensinamento divino. Elas mantêm algumas relações com crenças mágicas primitivas, mas proíbem por si mesmas.
Entre os tabus, é interessante observar os do tipo “faz mal” (faz mal ter relações durante a menstruação”; faz mal ter relações durante a gravidez”, etc). Ninguém explica cientificamente por que “faz mal”.
A mesma racionalidade se observa nas crendices e superstições. São crenças populares absolutamente sem fundamento, algumas até ridículas, mas que se sustentam e se transmitem pela força do “todo mundo sabe” ou “todo mundo acredita”. Alimentadas pela irracionalidade terminam por se transformar em certezas.
Uma característica interessante é que a crendice nunca é fato isolado, mas está inserida em uma verdadeira malha na qual várias crendices menores se alimentam, ao mesmo tempo que são retroalimentadas pelas próprias superstições secundárias a que deram origem.
O observador atento constata que muitas crendices giram em torno de um pressuposto cultural nuclear. Um desses núcleos é a identificação do sexo com a reprodução, isto é, o reconhecimento de que a atividade sexual só é pertinente se estiver a serviço da procriação. Essa reprodução cultural, revigorada pela tradição judaico-cristã teve sua origem em crenças bastante primitivas.
Em certas civilizações muito antigas, sobretudo em povos agrários, a identificação do sexo com a reprodução era um fator importante para a própria sobrevivência do grupo. A atividade sexual representava não só a esperanças de novos membros para a lavoura, como também de novos defensores da terra contra a agressão das tribos vizinhas. O sexo era, portanto, o caminho para o poder e para a força do grupo. O sêmen (semente) era precioso tesouro que não podia ser desperdiçado. Entende-se assim por que a masturbação era considerada detestável pelos povos agrários, sujeitas a todos os tipos de sanções, inclusive reforçada pelas crendices condenatórias, muitas das quais sobrevivem até nossos dias.
Relacionada com a identificação entre sexo e reprodução está a deificação do pênis como símbolo da fertilidade.
Nos povos antigos havia um verdadeiro culto fálico. Representações penianas eram usadas pelas mulheres como talismã protetores contra a esterilidade e veneradas pelos agricultores como propiciadoras de boas colheitas.
Descobertas arqueológicas têm evidenciado que eram comuns, nas civilizações antigas, representações de homens com falos eretos. Na Grécia, essas reminiscências culturais se evidenciaram com criatividade.
A crendice do pênis como símbolo de força e poder impregnou o pensamento moderno. Esse suporte mítico é uma das fontes em que se alimenta a pretensa superioridade masculina.
Muita gente acredita que o tamanho dos órgãos sexuais é fundamental para o êxito erótico para as pessoas. Embora a crença mítica tenha se fixado mais no homem do que na mulher, ela também se generalizou entre o sexo feminino em comentários do tipo: “mulher sexy tem peitos grandes”, “quanto maior o clitóris, maior a responsividade sexual”, etc.
No homem a crendice se evidencia de modo dramático, deixando claro que o indivíduo é tanto mais “macho”quanto maior for seu órgão genital: “as pessoas que têm pênis bem dotados são muito mais capazes de satisfazer sexualmente suas parceiras”. Procura-se correlacionar o tamanho do pênis comas dimensões  de outros segmentos do corpo,  em particular o pé e o nariz.
Vale esclarecer que nada tem a ver com o tamanho do pênis flácido com suas dimensões em ereção. Pênis eretos de proporções semelhantes podem, em estado de flacidez, possuir tamanhos diferentes. Não se pode diagnosticar as dimensões do falo sem antes vê-lo em ereção, o que nem sempre é desejável em ambiente de consultório.
Vivenciando todas essas crendices, um indivíduo com pênis pequeno se evidentemente considera menos viril. A constatação da sua “inferioridade” física o aprisiona numa constrangedora e vergonhosa situação que o leva a evitar relações sexuais, quando determina disfunções eréteis. Atualmente, afirma-se com muita graça que não é aquilo que o homem tem lhe atribui importância, mas o que ele faz de importante com aquilo que tem”.
O papel terapêutico do esclarecimento é o melhor remédio, embora quem está preso nas malhas do ilógico, nem sempre seja receptivo para a aceitação do pensamento científico.
É muito comum observar homens, alguns inclusive de indesejável posição intelectual, que, aprisionados a crenças supersticiosas, enchem de frustrações e derrotas sua vida sexual.
Embora o culto às dimensões genitais seja prerrogativa de algumas pessoas, sabe-se que, em geral, os pênis mais longos não são os mais desejáveis pela maioria das mulheres.
No intróito vaginal e, sobretudo, na região clitoridiana, existe grande quantidade de terminações nervosas sensitivas captadoras do estímulo mecânico e capazes de eliciar o reflexo orgásmico. Nesse sentido, não é o comprimento de pênis o que importa; aliás, quando excessivamente longo, pode forçar dolorosamente os fundos de sacos vaginais, sobretudo em portadoras de retroversões uterinas. Os conhecimentos da anatomofisiologia sexual demonstram que a vagina é capaz de se adaptar a qualquer dimensão peniana e que o atrito no clitóris e no intróito vaginal propicia mais prazer. A intromissão do pênis, seja qual for seu tamanho, provoca distensão das ninfas e, consequentemente, do capuz clitoridiano, que é repuxado para baixo.
A movimentação rítmica da pelve, deslocando as ninfas lateralmente sobre o corpo de glande clitoridiana, promove o atrito excitante. Se fosse necessário valorizar as dimensões genitais. Diríamos que o pênis mais grosso, e não os mais longos, produzem os melhores efeitos mecânicos.
A identificação da sexualidade com a reprodução originou também outras crendices secundárias. Uma delas é a de que “mulher grávida não tem desejo sexual”. Trata-se de uma generalização similar à afirmação de que a “esterilização diminui a apetência dos homens e mulheres” ou à de que “cada indivíduo tem reservado para si uma quota de experiências sexuais que, ultrapassada, faz com que a possibilidade de procriar, a existência da sexualidade nesses indivíduos é considerada anormal e fantástica.
Partindo da importância fálica, há também uma enorme variedade de crendices, como a de que “a mulher não possui as mesmas necessidades sexuais do homem” ou sua variante explicitamente machista: “um homem não se satisfaz com uma só parceira”. Essa superstição encontra respaldo, em parte, no fato de que o homem tem seu desejo claramente evidenciado pela ereção, e em parte pela “prova” analógica de que, entre os animais, as fêmeas só aceitam relações em épocas apropriadas, enquanto o macho pode tê-las a qualquer tempo.A analogia é infeliz. A sexualidade do homem  é essencialmente cultural e muitas das características apontadas como “inatas” à condição feminina são produtos culturais da história da humanidade.
Depois dos trabalhos pioneiros de Masters e Johnson, demonstrou-se que os homens e mulheres possuem as mesmas potencialidade responsivas e que fisiologicamente a ausência do período refratário na resposta sexual feminina confere até certa vantagem às mulheres, aumentado-lhes a possibilidade repetitiva de atos sexuais sucessivos, o que ocorre com os homens.
É interessante observar como as crendices procuram um caminho a sobrevivência quando se vêem ameaçadas. Isso pode ser exemplificado pelos diferentes desdobramentos do duplo padrão sexual tradicional que, na tentativa de se revigorar, se transmuda em novas crendices.
Assim, por exemplo, alguns homens, partem da concepção de que, tendo a mulher conquistado sua liberdade sexual, ela deverá estar sempre pronta e apetente para qualquer parceiro. É uma forma velada de sobrevida da mítica “superioridade” do homem: em lugar de servir a um senhor só, ela deverá estar disponível a servir muitos.
Aliás, dos movimentos de emancipação da mulher nasceram várias crendices modernas. Uma é a de que é necessário ter sempre “orgasmos simultâneos”. A mutualidade, embora desejável, não é norma. O comum é que em nada torna o ato sexual insípido ou imperfeito, desde que o encontro erótico propicie a realização mútua.
O orgasmo feminino tem sido a principal fonte de superstições sexuais modernas. A afirmativa de que as mulheres podem ter orgasmos sucessivos, perfeitamente demonstrada pelo casal Masters e  Johnson, tem gerado uma busca compulsiva do reflexo orgásmico múltiplo, o que leva a surpimi-lo por completo. Confunde-se potencialidades com necessidades. É importante fixar que o orgasmo é sempre desejável, mas é o prêmio de quem de entrega  ao prazer de gozar o momento sexual sem ansiedades, cobranças ou expectativas. Um ato sexual pode ser muito mais gratificando, embora não necessariamente orgásmico, se cada uma dos parceiros estiver comprometidos em se entregar ao carinhoso enlevo da maior forma de comunicação humana.

Fonte:

Cavalcanti R, Cavalcanti M. Tratamento da Inadequações Sexuais. 3.ed. São Paulo:Roca, 2006.

domingo, 5 de dezembro de 2010

As expectativas do amor no casamento

     Assim como na nossa cultura acredita-se que só é possível estar bem vivendo uma relação amorosa, o casamento por amor passou a ser sinônimo de felicidade e, por conseguinte, uma meta a ser alcançada por todos.
     A idéia de felicidade conjugal depende da expectativa que se tem de casamento. Algumas décadas atrás, uma mulher se considerava feliz no casamento se seu marido fosse bom chefe de família, não deixasse faltar nada em casa e fizesse todos se sentirem protegidos. Para o homem, a boa esposa seria aquela que cuidasse bem de casa e dos filhos, não deixasse nunca faltar a camisa bem lavada e passada e, mais que tudo, mantivesse sua sexualidade contida. Um casal perfeito: uma mulher respeitável e um homem provedor.
     Hoje os anseios são bem diferentes e as expectativas em relação ao casamento tornaram-se muito mais difíceis, até  mesmo impossíveis de ser satisfeitas. As pessoas escolhem seus parceiros por amor e esperam que esse amor e o desejo sexual que o acompanha sejam recíprocos e para a vida toda. Aí, deparamos com uma questão crucial. O amor até que a morte nos separe se torna cada vez mais inviável.
     A entrada do amor romântico faz do casamento o meio para as pessoas realizarem suas necessidades afetivas. Idealiza-se o par amoroso e, para manter essa idealização, não se medem esforços, o que acaba sobrecarregando a relação entre os cônjuges. Imagina-se que no casamento se alcançará uma complementação total, que as duas pessoas se transformarão numa só, que nada mais irá lhes faltar e, para isso, ficam implícito que cada um espera ter todas as suas necessidades pessoais satisfeitas pelo outro.
     Numa relação estável, é comum as pessoas se afastarem dos amigos e abrirem mão de atividades que anteriormente proporcionavam amigos e abrirem mão das atividades que anteriormente proporcionavam grande prazer. Um deve ser a única fonte de interesse do outro e, portanto, tudo o mais é dispensável. Esse comportamento é aceito socialmente como natural, tanto que, num grupo de amigos, quando a ausência de uma membro é sentida, ouvimos explicações do tipo: “É , ele sumiu. Depois que casou nunca mais deu notícias.”
     Esse treinamento para se acreditar na complementação total com o outro geralmente se inicia antes do casamento.
     O ideal do par amoroso que está sempre junto, que se completa em tudo, em que um é a única fonte de gratificação do outro, atenua por um tempo o temor desamparo. Mas, para manter essa situação, são feitas muitas concessões e a conseqüência inevitável é um acúmulo de frustrações que torna a relação no casamento sufocante.
    E. Lê Garrec sublinha que o casal aniquila a pessoa humana, numa confusão alienante: “O ‘eu’ desaparece, absorvido, afogado no ‘nós’. Porque o casal não se permite essa parte de solidão indispensável à existência do indivíduo.
     Na busca de estabilidade e segurança afetiva qualquer preço é pago para evitar tensões que decorrem de uma vida autônoma. Assim, o desejo de conviver com intimidade se confunde com a ânsia de manter a estabilidade, levando as pessoas a suportar o insuportável. Tentando justificar sacrifícios ou frustrações pessoais, cria-se um mundo fantástico em que defesas como a negação e a racionalização são acionadas para que continue a viver uma relação idealizada, distante do que se ocorre na vida real.
     Quanto mais concessões são feitas para se manter o casamento, mais hostilidade vai surgindo em relação ao outro. Hostilidade, na maioria das vezes, inconsciente, que vai minando gradativamente a relação, até torná-la insustentável. “Assim, é justamente das pessoas mais tolerantes e dóceis que podemos esperar as ‘viradas de mesa’ mais intempestivas e radicais.
     O esforço para corresponder às expectativas depositadas no casamento pode superar o limite da capacidade de conceder e fazer optar pelo fim da relação. Em outros casos, o tédio e a monotonia da vida a dois, em função da dependência emocional que se tem do outro, podem levara uma atitude de resignação e acomodação.

Fonte:
  Lins, R. N. A Cama na Varanda: arejando novas idéias a respeito de amor e sexo: novas tendências.ed rev e ampliada.Rio de Janeiro:BestSeller, 2007:175-180.

Casamento

     Dentro do útero da mãe o indivíduo obtém a satisfação imediata de todas as suas necessidades.        Desconhece a fome, o frio, a sede e a falta de aconchego. Mas nasce. Precisa respirar com os próprios pulmões, reclamar a fralda molhada, desesperar-se com a cólica. É tomado por profundo sentimento de falta. Uma angustiante sensação de desamparo o invade. Sem retorno ao estágio anterior, isso o acompanhará por toda da vida.
     Ao nascer, ele é introduzido num mundo com padrões de comportamento claramente estabelecidos. Inicia-se, assim, o processo de socialização. Os desejos espontâneos são gradualmente substituídos pelo que se aprende a desejar, e o indivíduo passa a se comportar e agir de acordo com a expectativa social. As singularidades não mais existem. O condicionamento cultural impõe como única forma de atenuar o desamparo uma relação amorosa fixa e estável: o casamento. Tenta-se reaver o paraíso simbiótico que se tinha no útero da mãe. Ilusão que dura pouco, que não sustenta na realidade de uma vida a dois, cotidiana.
     Aprisionadas pela tirania de uma moral que determina o certo e o errado, o bom e o mau, pessoas solteiras, separadas ou viúvas buscam no casamento sua parcela de felicidade. A mudança na forma de pensar e de viver gera medo e ansiedade, sendo mais fácil optar pelo já conhecido, apesar das frustrações.      Contribuem para isso a família, os amigos, a escola e os meios de comunicação. Não existe novela sem casamento feliz no final.
     Quase todos os homens e mulheres, desejam não só casar, como se submeter com resignação a muitas outras normas sociais de conduta, a maioria incompatível com suas aspirações mais legítimas. Fazer escolhas realmente livres não é simples. Seu preço é fixado no alto pela sociedade, que mantém unidos os fiéis, á custa do sacrifício individual.

 Fonte:
 Lins, R. N. A Cama na Varanda: arejando novas idéias a respeito de amor e sexo: novas tendências.ed rev e ampliada.Rio de Janeiro:BestSeller, 2007:170-172.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Disfunção Erétil e Ejaculação Rápida:relação com a ansiedade

Definições

Para Masters e Johnson (1979), ejaculador precoce é o indivíduo que não contenta a parceira, em pelo menos 50% das relações sexuais. Os autores, entretanto, não especificam o número das relações sobre o qual fixam este limite.
Kaplan (1974), ao estudar as várias definições de ejaculação prematura, encontra um critério comum o número de incursões penianas e o tempo decorrido, após a penetração, até o reflexo ejaculatório estão intimamente relacionados. Esta autora utiliza, apenas recursos da reflexologia, para definir a disfunção erétil como “falha ao reflexo erétil”. Essa definição ignora questões biológicas e sociais, sem dúvida implicadas na origem do distúrbio.
A CLASSIFICAÇÃO INTERNACIONAL DE DOENCAS, décima revisão (CID-10), definiu “falha da resposta sexual” (incluindo impotência) como “dificuldade em desenvolver ou manter uma ereção adequada para o intercurso satisfatório”, desde que excluídas patologias orgânicas (OMS, 1993, p.189).
De acordo com esse critério diagnóstico, ejaculação precoce, representa a “incapacidade  de controlar ejaculação o suficiente para ambos os parceiros gozarem a interação sexual” (OMS, 1993, p.190). Para a adequada definição do termo, exige-se exclusão da etiologia orgânica e ereção retardada.
Nestas duas últimas definições, percebe-se a tentativa de inclusão do aspecto relacional. Entretanto, não é considerada a possibilidade, muito comum, da concomitância de disfunção sexual da parceira, o que configuraria uma complementariedade patológica (OLIVEIRA & ABDO, 1994).
Diversos autores, como (KAPLAN , 1974;MONEY & MUSAPH, 1977;BANCROFT, 1983;GREENWOOD, 1984; ZILBERGELD, 1980), ao relacionarem os possíveis fatores etiológicos, incluem, com freqüência, a ansiedade como associada, causadora e/ou mantenedora das disfunções sexuais. No entanto, a ansiedade (sintoma ou patologia) não é valorizada na definição desses transtornos.


Causas Imediatas

KAPLAN (1974), salienta os aspectos que se constituem em dificuldades imediatas no campo da sexualidade, como:
  • Inabilidades do desempenho eficiente;
  • Medo do fracasso acompanhado de extremo desejo de satisfazer o(a) parceiro(a);
  • Tendência a racionalizar o prazer erótico (dificultando a entrega para prazer erótico (dificultando a entrega para o prazer sexual), comunicação precária do casal a respeito de preferências sexuais;
A inabilidade no desempenho sexual é resultado, geralmente, do desconhecimento de peculiaridades da  resposta sexual, por exemplo: o homem, tendo sua competência de erotização diminuída pela idade, pode desenvolver disfunção erétil secundária pela ansiedade resultante de cobrança de resposta.
A obrigatoriedade de orgasmo simultâneo a que o casal se submete, por pressão cultural, pode, também, desencadear falha de ereção.
O medo do fracasso no sexo relaciona-se diretamente com a ansiedade.
De acordo com HARTMAN(1980), a disfunção sexual masculina pode ocorrer mais frequentemente quando a parceira é ativa e reivindicadora de prazer sexual.
Para KAPLAN(1974), a partir de um fracasso eventual não superado, pode-se configurar autêntica disfunção, em indivíduos vulneráveis orgânica ou emocionalmente.
Desviando a racionalização do prazer erótico, o indivíduo impede de desfrutar o ato sexual, tornando-se expectador de seu desempenho e sem entrega. Auto-observação e crítica ansiogênicas, podem, neste caso, resultar em disfunção erétil.


Tratamento

Tratar a disfunção sexual masculina significa mais que promover recuperação do controle e/ou da força de ereção. Representa, antes, recuperar e, às vezes até, desenvolver a auto-estima e o sentimento de competência para os diversos aspectos da atividade humana.
Os elementos indispensáveis para qualquer abordagem terapêutica são:
  • Incentivar a comunicação dos parceiros e a manifestação mútua de suas necessidades sexuais específicas;
  • Esclarecer o ciclo de resposta sexual e os aspectos ligados à função sexual;
  • Estimular exercícios sexuais (entre uma consulta e outra).
No caso da disfunção erétil, os medicamentos administráveis por via oral recentemente lançados (sildenafil, fenolamina) têm se constituído em mais de um recurso contra a disfunção erétil. Agindo de forma incisiva e sem inconvenientes da administração injetável, auxiliam na aquisição de auto-confiança e encorajam a retomada da atividade sexual, sem a  insegurança e o constrangimento das tentativas frustradas.
Observa-se que esse tipo de medicação só é útil quando existe o desejo, ou seja, quando a disfunção erétil decorre de alterações da excitação ou do orgasmo. A dose indicada é de 50 mg de sildenafil (Viagra®)ou 40 mg fentolamina (Vasomax®,Regitina®, Herivyl®) 40 a 60 minutos antes do ato sexual.                   
Para a ejaculação precoce, os efeitos colaterais dos antidepressivos(diminuição de libido e das secreções, contenção da ansiedade)auxiliam no retardo da ejaculação.


Fonte:
Abdo CHN. Sexualidade Humana e seus Transtornos. 2ª ed rev amp. São Paulo: Lemos Editorial;79-89; 2001.

Para uma pesquisa mais profunda:
BANCROFT, J. Human Sexuality and its Problems. Edinburgh, Churchill Livingstone, 1983.

GREENWOOD, J. Coping with Sexual Relastionships. Edinburgh, Mc Donald, 1984.

HARTMAN, L.M. Relationship Factores and sexual Dysfunction. Canadian J. Psychiat., 25:560-3, 1980.

KAPLAN,H.S. A Nova Terapia do Sexo. 5ª ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1974.

MASTERS, W.H. & JOHNSON, V.E. A Incompetência Sexual. 3ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979.

MONEY, J. &MUSAPH, H. The Handbook of Sexology. Amsterdam, London, New york, Excerpta Medica, 1977.


OLIVEIRA, S.R. & ABDO, C.H.N.Algumas Reflexões sobre a Importância do Casal na Gênese das Patologias Sexuais. Rev. Psiquiat. Clín., 21(1):15-18, 1994.

OMS. Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10. Descrições Clínicas e Diretrizes Diagnósticas. Trad. D. Caetano. Porto Alegre, Artes Médicas, 1993.

ZILBERGELD, B. Men and Sex. London, Fontana, 1980.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Estudo identifica fatores que prejudicam a sexualidade feminina após a idade reprodutiva

    Depois da menopausa, quando acabam as ovulações mensais e os teores de hormônios femininos caem bastante, a qualidade da vida sexual de mais de um terço das mulheres piora muito. Elas passam a evitar relações sexuais, em grande parte por sentir desconforto e dor que tornam o sexo quase um suplício doloroso. Essas constatações vêm de um levantamento coordenado pelo ginecologista Aarão Mendes Pinto-Neto, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e detalhado em três artigos publicados em 2008 na revista Menopause. 
    No trabalho, parte da tese de doutorado da ginecologista Ana Lúcia Valadares, os pesquisadores avaliaram a qualidade da vida sexual de 378 mulheres com idades entre 40 e 65 anos que haviam completado o ensino médio, uma população muito pouco estudada no Brasil. Todas as entrevistadas eram moradoras de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. Elas responderam a um questionário – desenvolvido na Austrália e traduzido para o português pelo grupo da Unicamp – que investiga a vida sexual por meio de perguntas sobre a frequência das relações sexuais (solitárias ou a dois, com ou sem penetração vaginal), a intensidade do prazer alcançado com o sexo e a frequência e a intensidade de pensamentos sobre sexo e do desejo sexual. 
     Um dos resultados que chamaram a atenção foi a grande frequência de dor durante a penetração – distúrbio chamado pelos médicos de dispareunia –, mencionada por quase 40% das entrevistadas. “Entre dois e três anos depois da menopausa, quase todas as mulheres sentem algum nível de desconforto devido à secura vaginal”, conta Aarão. Em muitos casos, nada que informação e um pouco de gel lubrificante não resolvam. 
    A companhia de um parceiro carinhoso e saudável também se mostrou indispensável para uma boa sexualidade. Ana verificou que as mulheres cujos parceiros tinham problemas como disfunção erétil ou ejaculação precoce apresentavam maior tendência a sentir dor durante o sexo. Uma explicação provável, segundo os pesquisadores, é que essas mulheres, para atingir um nível de lubrificação confortável, precisavam receber mais carícias, o que nem sempre um parceiro mais apressado consegue dar. 
   A dispareunia foi mais comum entre as mulheres com depressão e as que se sentem nervosas em relação ao sexo. Como o questionário estabelece a correlação, mas não permite saber se a dor causa o problema emocional ou se é consequência dele, os pesquisadores se valem da experiência clínica para entender melhor os resultados. Com base nos casos que viu em mais de 20 anos de estudo, o ginecologista da Unicamp acredita que o desconforto físico surge antes do problema emocional. E, quando a mulher antecipa a dor que sentirá, começa a evitar a atividade sexual.

     Alguns dos sinais desagradáveis da menopausa atrapalham o sexo, o que torna a disfunção sexual mais comum entre as mulheres que têm esses sintomas. Não surpreende. Quem transpira e sente falta de ar durante ondas súbitas de calor, não produz lubrificação vaginal, sofre de insônia, tem depressão e passa por um período em que as oscilações de humor parecem uma montanha-russa a ponto de dar saudades das tensões pré-menstruais da juventude dificilmente encara o sexo com bons olhos. Além disso, os medicamentos contra depressão e hipertensão, problemas comuns nessa fase da vida, podem diminuir o desejo sexual.  

Medida pessoal - Uma boa vida sexual, Aarão frisa, é a que satisfaz a própria pessoa. Há quem fique feliz com sexo uma vez ao mês e quem ache três vezes por semana pouco. E, ele acrescenta, o desejo sexual naturalmente diminui com a idade – não com a menopausa. “Um homem de 50 anos tem menos desejo do que tinha aos 20 anos; o mesmo acontece com as mulheres.” Por essa razão, o pesquisador não fala em sexualidade boa ou normal, mas sim adequada para cada mulher.  
     A satisfação, porém, não depende apenas da saúde física. Para uma vida sexual plena, a saúde emocional do relacionamento deve estar em dia. “Para ter uma sexualidade adequada, a mulher precisa sentir atração pelo parceiro”, conta o pesquisador da Unicamp. O questionário incluiu perguntas sobre quão satisfeita a participante estava com seu parceiro como amante, se estava apaixonada e, de maneira geral, como se sentia em relação a ele – ou ela, no caso de relações homossexuais. Uma proporção maior (de 71% a 86%) de mulheres que deram nota máxima em uma escala de 0 a 6 para cada um desses três itens – ou seja, estavam apaixonadas, os parceiros as satisfaziam e elas os viam como bons companheiros – afirmou ter uma boa vida sexual. Entre as menos satisfeitas com seus parceiros, mais da metade (entre 53% e 56%) tinha a sexualidade prejudicada.  
     Entre as mulheres da capital mineira, ficou claro que ter um parceiro sexual saudável é importante para uma boa vida sexual, mas morar com esse parceiro atrapalha. Segundo o ginecologista, alguns sexólogos defendem que a cura para a disfunção sexual feminina é um parceiro jovem e atraente.  
     A partir desse levantamento, os ginecologistas podem ajudar as mulheres a resgatarem sua sexualidade depois da idade reprodutiva. Para isso é preciso avaliar o caso de cada paciente e buscar soluções mais adequadas para elas. A terapia de reposição hormonal, por exemplo, pode reduzir a falta de lubrificação e os calores, e determinadas posições sexuais podem ser mais confortáveis e prazerosas para a mulher. “Nossa função”, resume Aarão, “é oferecer bem-estar geral às mulheres e preservar a saúde delas para a velhice”.
Maria Guimarães - Pesquisa Papesp
[18/2/2009]


Fonte:

     

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Modelo Circular da Resposta Sexual Feminina: Basson - Parte II

     


    O paradigma criado por Masters e Johnson e Kaplan foi aceito por muitos anos como representante da resposta sexual tanto nos homens como nas mulheres. Recentemente, uma das principais especialistas em saúde sexual da mulher (Rosemary Basson) tem defendido um novo modelo de função sexual feminina que sublinha a interdependência das relações e dos  fatores da função sexual em mulheres. Neste novo modelo, a sexualidade e a função sexual em mulheres segue uma trajetória circular em que estímulos emocionais e de relacionamento são questões que desempenham um papel fundamental e o desejo sexual intrínseco desempenha um papel muito menor1.
     Este modelo foi confirmado no II Encontro Internacional para levantamento de Consensos relativos às desordens sexuais, caracterizando o ciclo de resposta sexual feminina por cinco fases (Basson et al., 2004) assim esquematizadas2:
1ª. Fase: Início da atividade sexual com motivação não necessariamente sexual, podendo não haver consciência de desejo sexual.
2ª. Fase: Receptividade ao estímulo sexual em contexto adequado, identificação da excitação sexual potencial (excitação subjetiva e resposta física), desencadeando a responsividade biológica.
3ª. Fase: Vivência da excitação subjetiva, que também pode desencadear a consciência de desejo sexual.
4ª. Fase: Aumento na intensidade da excitação e do desejo responsivo, podendo ou não ocorrer o alívio orgástico.
5ª. Fase: Satisfação física e emocional, aumentando a receptividade para iniciar a atividade sexual na próxima vez, o que fecha, portanto, um modelo circular. Havendo insatisfação física ou emocional, diminui a motivação para ser ativa sexualmente no futuro.Observou-se que o desejo inato ou espontâneo, experimentado anteriormente ao início da estimulação, pode algumas vezes estar presente, desencadeando o ciclo da resposta sexual e substituindo as duas primeiras fases. Caracteriza-se, neste caso, uma combinação com o modelo tradicional. Estabeleceu-se a ressalva de que a ausência do desejo espontâneo não caracteriza uma disfunção sexual.
     Esse modelo embasa o Índice da Função Sexual Feminina – FSFI (Rosen et al., 2000), um questionário breve que avalia seis domínios: desejo, excitação subjetiva, lubrificação, orgasmo, satisfação e dor. Permite avaliar a intensidade relativa da disfunção em cada um desses domínios.

Fonte:

1. Tom F. Lue; Shindel, Alan. Male Sexual Function and Dysfunction:A guide for men and their partners (Internet). Version 43. Knol. 2008 Nov 12. Available from: http://knol.google.com/k/tom-f-lue/male-sexual-function-and-dysfunction/O879r3Nx/qdC4CQ.

2. Fleury, H. J. Estudo comparativo entre dois modelos de intervenção sobre as manifestações da sexualidade na perimenopausa: modelo fitoterápico e modelo psicoterapêutico associado ao fitoterápico (Internet). Dissertação apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Mestre em Ciências. São Paulo, 2006. Disponível em : http://www.heloisafleury.com.br/hjf_tese.pdf