sexta-feira, 27 de maio de 2011

Homossexualidade: do Conceito ao Tratamento - Parte II

Desenvolvimento Sexual Psicológico
     Constituída a base anatômica do sexo, desencadeia-se a definição sexual, do ponto de vista psicológico, isto é, a identidade de gênero, senso que o indivíduo tem de sua masculinidade ou feminilidade (KAPLAN & SADOCK, 1990).
     Essa identidade forma-se a partir das características anatômicas do indivíduo e das expectativas familiares e sociais. Esta é a matriz somático-familiar, na qual se inicia o processo de diferenciação e a definição sexual.
     A influência cultural manifesta-se por intermédio das expectativas familiares em relação à orientação sexual da criança. Tais expectativas se fazem presentes durante toda a infância, contribuindo para o desenvolvimento do papel sexual (de homem ou de mulher).
     Os padrões masculino e feminino. Adquiridos de forma natural e implícita em vários níveis sociais, sofrem tanto maior influência externa quanto mais o indivíduo cresce. Além disso, fatores antropológicos acham-se ligados, de forma abrangente, ao modo como a sexualidade é vivenciada, em diferentes culturas (GREGERSEN, 1983).
     Há variações culturais de incidência bem como de grau de sanção social imposta à homossexualidade. Padrões do papel de gênero (o que é considerado como comportamento “masculino” ou “feminino”) também variam entre diferentes culturas, da mesma forma que padrões constitucionais, de físico ou temperamento, podem vir a ser associados a conceitos variáveis de papel de gênero em culturas diversas.
     Essas tendências, socialmente determinadas, são relevantes em muitas culturas, no sentido de conduzir os indivíduos a papéis de gênero invertidos (MARMOR, 1973). Atuam nem sempre de modo explícito, mas por meio de interações sutis, não verbais, das quais os próprios agentes podem estar inconscientes.
     É a soma desses valores internalizados, associados ao desenvolvimento psicológico do indivíduo, que lhe confere a identidade de gênero. E é a partir das marcas vivenciais da primeira infância que se estabelece o desenvolvimento psicológico do indivíduo.
     Tomando o pensamento freudiano como parâmetro, podemos afirmar que a sexualidade ultrapassa a pura genitalidade e está relacionada também a um alívio de tensão. Quando nascemos, as nossas fontes de  satisfação sexual não são genitais e não há diferenciação psicológica da sexualidade.
     Na infância, há manifestações de atividade sexual cuja evolução estabelece um padrão de investimentos e comportamentos no adulto. Esta evolução da sexualidade ocorre, paralelamente, em duas vias: uma pessoal (com base fisiológica na elaboração do prazer) e outra interacional (o estabelecimento de uma relação com um objeto, na busca do prazer). O amor envolve o ato sexual, mas transcende significado (ABDO;SAADEH, 1995).
     Em linhas gerais, para FREUD, conforme DIERKENS (1972), o desenvolvimento da sexualidade implica numa evolução fisiológica, determinada por zonas erógenas (zonas produtoras de prazer) e pelo estabelecimento de uma interação como o objeto de interesse sexual. Esta evolução se dá por fases ou etapas: pré genital e genital.
     A primeira fase (pré genital) é a oral e transcorre do nascimento até cerca de dois anos de idade.
    A fase anal, que se inicia com o nascimento, atinge maior importância à época do desmame (por volta dos 18-24 anos), estendendo-se até os três anos de idade.
     A terceira fase do desenvolvimento pré genital da sexualidade é a fálica (dos três aos cinco anos de idade). Ao final desta, a criança encontra-se, em tese, apta a resolver, primariamente, seu complexo de Édipo.
     O complexo de Édipo não é só o amor do menino pela mãe e o seu ciúme e inveja do pai; ou ao amor da menina pelo pai e o seu ciúme e inveja da mãe. Para ser amado pelo pai, o menino tenta ser como a mãe (passando a adotar atitudes femininas); a menina, objetivando o amor da mãe, adota atitudes masculinas. Não tendo sucesso, substitui ela seu objeto de amor, passando a desejar o pai.
     Então, resoluções inadequadas do Édipo podem se originar de identificações heterólogas, com introjeção do genitor do sexo oposto e aversão ao genitor do sexo oposto e aversão ao genitor do mesmo sexo, o que seria a base da homossexualidade (NOBRE DE MELO, 1980).
     Após as fases pré genitais, a criança entra num período de latência, no qual a sexualidade, embora presente, não se expressa por novas manifestações (dos 6 aos 10 anos, em média).
     Quando a puberdade (com o aparecimento dos caracteres sexuais secundários), ocorre a fase genital propriamente dita, com desenvolvimento voltado à eleição do objeto e à forma de relação a ser estabelecida com ele.
    Formada a base psíquica na infância, é na adolescência que eclodem definições e dificuldades do desenvolvimento, a partir das quais, a identidade sexual, a elaboração subjetiva do prazer e a busca do objeto (parceiro) dão-se.
     FREUD (1973a) expressou, já em 1905, que como conseqüência da intensidade de alguns componentes ou de satisfações prematuras, se produzem, efetivamente, fixações da libido (energia dos instintos sexuais) em determinados pontos do desenvolvimento. Até esses pontos retorna a libido, facilmente, quando tem efeito uma repressão posterior (regressão).
   Estabelecida a identidade de gênero, a partir das atitudes parentais e culturais, associadas ao desenvolvimento sexual somático, cabe ao indivíduo o aprendizado sobre o comportamento característico do seu sexo ou do sexo oposto, ao que chamamos papel de gênero (KAPLAN & SADOCK, 1990). Este pode ou não ser coerente com a identidade de gênero.


Comportamento e Práticas Homossexuais
  Os homossexuais não constituem uma população homogênea, quanto à personalidade e ao comportamento. Preconceitos científicos e sociais, no entanto, conduzem a uma concepção estereotipada da homossexualidade (KOLODNY e cols.,1982).
    Além disso, não há características físicas comuns a todos, embora freqüentemente, homens delicados e mulheres agressivas sejam identificados como homossexuais, o que constitui numa generalização imprecisa (POMEROY, 1968).
   A tendência de uma adolescente à homossexualidade reflete-se mais na sua capacidade de sentir-se atraído por pessoas do sexo oposto do que por sua iniciação sexual com indivíduos do mesmo sexo que o seu (WAGNER, 1980).
   Designa-se como homossexual a prática sexual ativa (desempenho do papel masculino), a passiva (desempenho do papel feminino) e na mista (desempenho ora ativo ora passivo), entre pessoas de um mesmo sexo.


Mecanismos Psicodinâmicos da Homossexualidade
     Segundo HATTERER (1984), cinco fatores (ou combinações deles) são responsáveis pela incapacidade de realização heterossexual, uma vez que fixam o indivíduo total ou parcialmente na homossexualidade ou o identificam como heterossexual. São estes os fatores:
  1)Deficiência ou limitação constitucional, relacionado à imagem que o indivíduo tem do seu desenvolvimento corporal, sexual e de identidade sexual;
   2)Antecedentes de relações familiares ou sociais conturbadas. Exemplos: mãe possessiva, sedutora, agressiva, competitiva ou hostil; pai passivo, indiferente ou hostil; pai e mãe ausentes;
   3)Exposição a condicionamento homossexuais em períodos decisivos do desenvolvimento sexual e da identidade sexual:
   4) Uso de fantasias, sentimentos e atividades homossexuais ao lidar com dificuldades de caráter não erótico ou este uso substitutivo a emoções que o indivíduo não é capaz de expressar;
   5)Impedimentos ou distorções na expressão de emoções culturalmente ligadas ao sexo ) dependência, passividade, agressividade, hostilidade).
   As principais causas da homossexualidade persistente, para esse autor, estariam associadas a relações conturbadas familiares ou com companheiros, especialmente se ocorrem em períodos críticos do desenvolvimento psicossexual.


Tratamento
   Não sendo doença, a homossexualidade não demandaria tratamento.
     Porém, os homossexuais procuram, às vezes, o auxílio de um médico, no sentido de se reassegurarem ou mudarem de orientação sexual. Estes representam pequena fração. A maioria não busca nem deseja tratamento.
     Disfunções sexuais, tais como ejaculação precoce, disfunção erétil, anorgasmia, podem ocorrer tanto no homo como a heterossexuais masculinos que, neste caso, beneficiam-se de atendimento (medicamentoso e/ou psicoterápico).
     Dificuldades familiares e/ou sociais podem ser trabalhadas em psicoterapia.
    Entre aqueles que desejam mudar de homo para a heterossexualidade, o acompanhamento é mais bem sucedido se o interessado tem fantasias e/ou contatos heterossexuais esporádicos e prazerosos.
     Em contrapartida, MARMOR (1973), há quase três décadas, argumentava que, apesar do homossexual não fazer parte do campo de ação do psiquiatra, apenas por ser homossexual, justifica-se a intervenção psiquiátrica, profilaticamente indicada, para crianças ou adolescentes que não estivessem da fazendo identificações do papel de gênero “apropriadas”. Isto porque a sociedade encarava a homossexualidade como um desvio de conduta.

Abdo CHN. Sexualidade Humana e seus transtornos. 2ª ed rev amp. São Paulo: Lemos Editorial;176-181, 185-186; 2001.


Para um estudo aprofundado:

ABDO, C.H.N. & SADEH,A.- Transtornos da Sexualidade. In: LOUZÃ, M.; ELKIS, H; YANG PANG,W. & MOTTA, T.- Psiquiatria Básica. Porto Alegre, Artes Médicas, p.229-319, 1985.

DIERKENS, J.-Freud: antologia Comentada. Barcelona, Oikostau S.A., 1972.

FREUD, S.- Três Ensayos para uma Teoria Sexual. In FREUS,S. – Obras Completas. 3 ed. Madrid, Nueva Madrid, 1973 a, v.II,p.1172-1273.

GREGERSEN,E. – Práticas Sexuais: A História da Sexualidade Humana. São Paulo, Roca, 1983.

HATTERER, L.J.-Homosexuality. In: CORSINI, RJ.- Encyclopedia of Psychology, New York, wiley, vol.II,1984.

KAPLAN, H. & SADOCK, B.J.- Compêndio de Psiquiatria Dinâmica. Porto Alegre, Artes Médicas, 1984.

KAPLAN, H. & SADOCK, B.J.- Compêndio de Psiquiatria Dinâmica. Porto Alegre, Artes Médicas, 1990.

KOLODNY, R.C.; MASTER, W.H. & JOHNSON, V.E.- Manual de Medicina Sexual. São Paulo. Manole, 1992.

            LE VAY,S. & HAMER, D.H.- Evidence for a Biological influence in Male Homossexuality. Scientific American, 270(5):20-25, 1994.

MARMOR,J. A Inversão Sexual – As múltiplas Raízes da Homossexualidade. Rio de Janeiro, Imago, 1973.

MARMOR,J.-The Role of Instinct in Human Behavior. Psychiat, 5:509-516,1942.

NOBRE de MELO, A.L.-Psiquiatria.3ª  ed. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1981, vol I.

POMEROY,W.B.-Homosexuality, Transvestism and Transexualism, In: VICEBT, C.E.;SPRINGFIELD, C. & Thomas, C.-Human Sexuality in Medical Education and Pratica.New York, Gelacorte, 1986.

WAGNER,C;A.-Sexuality of American Adolescents. Adolescence, 15(59):567-577, 1980.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Homossexualidade: do Conceito ao Tratamento - Parte I

Há duas décadas, o relacionamento sexual entre pessoas do mesmo sexo não é mais, por si só, considerado doença pela Associação Psiquiátrica Americana (1980). O comportamento homossexual, portanto, assim como o heterossexual são, cada vez mais, referidos como orientações diferentes de um abrangente espectro do comportamento sexual humano, orientações estas cujas origens necessitam ser determinadas e compreendidas, não se presumindo qualquer delas como mais ou menos “natural” que a outra.

Aspectos históricos
A homossexualidade existe desde os primórdios da história da humanidade, ainda que em nenhuma época, sociedade ou cultura tenha sido a prática sexual predominante.
A reação a esse tipo de orientação sexual variou desta a condenação à morte em fogueira, à aplicação de penalidades (prisão perpétua, tortura, castração) e até mesmo aceitação sem reservas (pela elite dominante).
A homossexualidade era praticada pelos romanos, desde o início desta civilização. Não é consenso, entretanto, entre os estudiosos do assunto, que os gregos incentivassem a relação de um homem mais velho (e sábio) com um jovem. Por outro lado, essa tendência parece ter influenciado romanos e persas e se contraposto à cultura judaica que valorizou a heterossexualidade, por sua função procriadora. A posição judaica transmitiu-se aos cristãos, os quais valorizavam, acima de qualquer tipo de prática sexual, a manutenção da castidade.

Conceitos e Freqüências
A teoria mais influenciada na Psiquiatria do século XX defendeu que a homossexualidade é a expressa de uma tendência universal do ser humano, decorrente de uma predisposição bissexual, biologicamente determinada. Freud, bastante influenciado pelas idéias de Darwin, acreditava que os seres humanos atravessam , inevitavelmente, uma fase homoerótica, nos processo para e heterossexualidade. Certas experiências, no entanto, poderiam interromper este processo e manter o indivíduo “fixado” a um padrão homossexual, Por outro lado, se o desenvolvimento se desse naturalmente, vestígios da homossexualidade perdurariam e se refletiriam em expressões “sublimadas de amizade por pessoa do mesmo sexo e em padrões de conduta e interesse próprios do sexo oposto. Como exemplo: interesses culinários ou atitudes “passivas” em homens; interesses atléticos ou atitudes “agressivas” em mulheres (MARMOR, 1973).
Hoje sabemos que conduta homossexual, inclusive contato físico, entre púberes ou adolescentes, por um período transitório, é mais comum do que se imaginava: passam por essa experiência cerca de 30% dos indivíduos, dois terços dos quais se torna heterossexual, na vida adulta.
O total reconhecimento da orientação homossexual só ocorre, para a maioria dos casos, no final da adolescência ou no início da vida adulta. Muitas experiências com parceiros do mesmo sexo, no início da adolescência, têm unicamente caráter exploratório, faltando-lhes o componente afetivo (KAPLAN & SADOCK, 1984).

Determinantes da Orientação Sexual
Apesar do progresso das neurociências, nosso conhecimento sobre as determinantes da orientação sexual humana continua insuficiente.
Não há nenhum elenco de fatores, até o momento, que explique completamente todos os padrões homossexuais. Pode-se dizer, entretanto, que, conforme já salientamos, as coisas da homossexualidade não estão determinadas ainda. Fatores constitucionais, relacionados à estimulação e à programação hormonal do cérebro na vida fetal, parecem ser elementos importantes. Acreditam alguns que o uso do estrógeno pelas gestantes pode aumentar a incidência de nascimento de homens homossexuais.
Há trabalhos sugestivos de que o nível de andrógeno circulante no sangue fetal é o responsável pelo comportamento sexual do adulto. Assim, fetos do sexo masculino com baixos níveis de andrógeno, bem como fetos femininos com elevados níveis deste hormônio, teriam maior tendência à homossexualidade. Contudo, até o momento, isto não foi comprovado.
Pesquisas recentes indicam que os genes influem na diferenciação sexual do cérebro e no modo de interação do indivíduo com o meio, reproduzindo as mais diferentes respostas aos estímulos sexuais. Por outro lado, verificou-se (LEVAY & HAMER, 1994) que um grupo de células do terceiro núcleo intersticial do hipotálamo anterior, na região pré-óptica medial, chamado de 3NIHA, é três vezes maior no homem que na mulher, sendo, também, maior em homem hetero que em homossexuais. Esse volume é praticamente o mesmo entre homens homossexuais e mulheres em geral.

Desenvolvimento da Sexualidade
Quanto mais inferior uma animal na escala evolutiva, mais sofisticados os seus padrões instintivos herdados e menos influenciáveis pelo ambiente. Conforme se ascende na escala evolutiva, esses padrões se tornam menos complexos e mais modificáveis pela ação ambiental. Nos seres humanos, esse desenvolvimento é máximo: nascemos não com padrões instintivos de adaptação complexos, mas com impulsos biológicos básicos cuja direção e objetos aos quais vão de desligar variam de acordo com a aprendizagem. É exatamente isso que possibilita aos seres humanos a incomparável capacidade de adaptação (MARMOR, 1942).
Nesse sentido, a sexualidade do ser humano inicia seu desenvolvimento a partir da concepção e o continua até o final da adolescência pelo menos. Por envolver aspectos somáticos, psicológicos e socioculturais, a seqüência deste desenvolvimento, na verdade, se prolonga às idades adulta e senil.
Podemos dividir o desenvolvimento sexual em duas partes que se estabelecem simultânea ou sequencialmente, ao longo da vida:
  • Desenvolvimento sexual somático e
  • Desenvolvimento sexual psicológico.

Desenvolvimento sexual somático
Implica na interação de elementos genéticos, hormonais e neurológicos, para a determinação do sexo anatômico (e consequentemente jurídico) do indivíduo, o que constitui a identidade sexual.
Uma vez determinado o par cromossômico sexual (XX, XY ou variações), é ele que vai estabelecer o desenvolvimento gônada, se feminino ou masculino, respectivamente.
Ao nascer, portanto, a criança já possui aparelho sexual, seja ele masculino ou feminino, formado anatômica e funcionalmente. A maturação dos eixos hormonais e neurológicos, e responsáveis por mudanças anatômicas e fisiológicas, é lenta, do nascimento à puberdade.
Na puberdade, sob influência desses eixos, as gônadas amadurecem e constituem-se as características sexuais secundárias que determinarão, do ponto de vista somático, o término da definição sexual.

Desenvolvimento Sexual Psicológico
Constituída a base anatômica do sexo, desencadeia-se a definição sexual, do ponto de vista psicológico, isto é, a identidade de gênero, sendo que o indivíduo tem de sua masculinidade ou feminilidade (KAPLAN & SADOCK, 1990).
Essa identidade forma-se a partir das características anatômicas do indivíduo e das expectativas familiares e sociais. Esta é a maior matriz somático-familiar, na qual se inicia o processo de diferenciação e a definição sexual.
A influência cultural manifesta-se por intermédio das expectativas familiares em relação à orientação sexual da criança. Tais expectativas se fazem presentes durante toda a infância contribuindo para o desenvolvimento do papel sexual (de homem ou de mulher).

Fonte:

Abdo CHN. Sexualidade Humana e seus transtornos. 2ª ed rev amp. São Paulo: Lemos Editorial;167-171, 175-176; 2001.


quinta-feira, 10 de março de 2011

Mulheres e a queixa sexual mais comum


A queixa sexual mais comum entre as mulheres é a falta de desejo, que está  relacionada intensamente aos fatores culturais que nos são transmitidos.
Somos educadas por mulheres que aprenderam a reprimir seus desejos, negar suas vontades e censurar tudo que diz respeito à sexualidade e, conseqüentemente, as mulheres são criadas a saírem do papel  de filha e logo passarem ao seu papel de mãe, sem viver o importante papel de mulher.
Quando criança deve-se ter modos e controle das vontades, no período da adolescência aprende a negar o seu prazer e encher-se de  questionamentos que não podem ser esclarecidos, criando suas próprias concepções.
Com este tipo de educação, há conseqüências que surgirão com o início de sua vida sexual, como:
Dor na penetração: por motivos fisiológicos ou psicológicos esta dor é uma disfunção sexual, conhecida como dispa reunia (dor no intercurso sexual, que pode ocorrer antes ou após o coito). Após exames feitos pelo ginecologista, se nada for constatado, a mulher deve se encaminhada para um psicólogo, onde perceberá que suas questões sexuais estão relacionadas a outras questões do seu cotidiano e, que  sendo trabalhadas com um profissional especializado, perceberá uma melhora.
Disfunção orgásmica: é caracteriza pelo atraso ou ausência constante do orgasmo, mesmo havendo desejo e excitação durante o ato sexual. Essa disfunção deve ser tratada com ajuda de profissionais especializados, como médicos e psicólogos, e um complemento para o tratamento desta disfunção é manter uma relação tranqüila, sincera com sua parceria, onde o diálogo aberto e sincero é essencial.
Falta de uma boa comunicação: a boa comunicação é necessária  em qualquer relacionamento, e quando se trata de relação homem versus mulher, se torna ainda mais importante, pois são duas pessoas com suas necessidades e vontades aprendidas diferentemente, fazendo com que seja necessária  uma adaptação de ambos para uma melhor convivência. Um diálogo aberto com sua parceria, onde a mulher tem a liberdade de expressar seus desejos, vontades, angústias e aflições, tem como resultado uma convivência harmoniosa e estável com sua parceria e  a melhora em sua resposta sexual.
Desconhecimento do próprio corpo: infelizmente, a mulher não é criada para sentir prazer, sendo assim inicia sua vida sexual e permanece boa parte dela sem saber, onde em seu corpo, sente mais prazer. Por isso, a masturbação tem um papel fundamental na vida sexual, pois tocando-se, percebe-se, descobre-se e consegue compartilhar com sua parceria onde é mais prazeroso ser acariciada sexualmente e estimulada para obtenção do orgasmo.
Mitos e tabus X informações científicas: é importante questionar as informações recebidas e não aceitá-las como se fossem verdades absolutas. Um bom exemplo a ser citado é a crendice de que “homem tem mais necessidades sexuais que as mulheres”. Na verdade os dois tem as mesmas necessidades, mas, como a mulher é educada pra reprimir seus desejos sexuais, esta crendice parece ser verdadeira. Busque informações científicas e profissionais especializados para sanar suas dúvidas e questionamentos.
Quando há falta de desejo em uma mulher, a tendência é que ela evite o ato sexual, mas esta hesitação causa menos desejo ainda, e isto se torna um ciclo.
 Para manter este desejo, é importante que haja um equilíbrio do trabalho, família e lazer. Ter uma boa alimentação e fazer exercícios físicos regulamente, manter uma relação estável e sincera com sua parceria, tendo momentos com mais intimidade (não necessariamente sexual), para cada vez se conhecer mais um ao outro.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Masturbação

 Na antiguidade, a masturbação era considerada uma forma aceita de obter prazer, embora os greco-romanos a desestimulassem até a idade de 21 anos. No Egito, a religião descrevia a criação do mundo pela masturbação do deus Atum, e muitas mulheres eram enterradas mumificadas com os objetos fálicos que se masturbavam.
Entretanto, a condenação bíblica à masturbação perdurou por milênios. A lei religiosa judaica impunha que os homens fossem produtivos e se multiplicassem. Portanto, o coitus interruptus não era admitido como técnica contraceptiva e o termo onanismo que lhe foi atribuído ficou associado também ao prazer solitário. Pelo costume antigo dos judeus, quando uma mulher contraía matrimônio, estava casada com o marido e com toda a família dele. Ela havia sido comprada e paga. Se ela não tivesse lhe dado filhos, o marido ao morrer desaparecia como se jamais tivesse vivido. O casamento por levirato era a solução. Se um irmão mais velho morria sem deixar herdeiro, cabia ao irmão mais novo a responsabilidade de tomar a viúva como esposa e criar o primeiro filho nascido de ambos como um filho legítimo do morto. No Gênese (38:6-10) vemos a rebeldia de Onan: “Judá tomou para seu primogênito Er uma mulher, a qual se chamava Tamar. Ora, Er o primogênito de Judá, era um homem maus aos olhos do Senhor, assim, o Senhor o matou. Disse Judá a Onan: ‘Vai até a mulher do seu irmão, toma-a e dá sucessão a teu irmão!’ Onan, sabendo que essa posteridade não seria sua, sempre que se unia á mulher de seu irmão deixava cair o sêmen no chão para que não desse sucessão a seu irmão. O que ela fazia era mau aos olhos do Senhor, que matou também a ele.”
A masturbação foi, então, punida, com a morte. Não é de se estranhar que durante muito tempo que se acreditou que a masturbação causava ataques epiléticos, loucura, reumatismo, impotência, acne, asma, idiotice, cegueira e até crescimento de pêlos nas palmas das mãos. Muitos adolescentes hoje não têm a certeza de que não sofrerão nenhum tipo de prejuízo pela atividade masturbatória, já que a idéia de pecado ainda está presente provocando culpa e medo.
Na Idade média, a ejaculação do homem só devia ocorrer com a finalidade de procriação, e na Inquisição o acusado de masturbação era considerado herege, podendo ser condenado à morte na fogueira. Para os padres dessa época, a masturbação era produto do demônio.
A partir do período entre as duas guerras, provavelmente sob a influência das teorias de Freud sobre a sexualidade infantil, alguns militam em favor da educação sexual e estabelece-se um consenso em considerar a masturbação normal durante a infância e a adolescência. Com o crescimento da sexologia, a masturbação torna-se um hábito desejável para os jovens. Os adolescentes que não conheceram essa etapa para o amadurecimento que, é a masturbação, quando chegam a idade adulta passam por muito mais dificuldades que os outros. A medida dessa evolução é indicada pela revista Vital, que afirma; “os biólogos se esforçam em descobrir as leis do prazer sexual (...). Seja por corpúsculos da voluptuosidade das zonas erógenas primárias ou pelas morfinas fabricadas pelo cérebro, está provado que o prazer não é um pecado na civilização, mas uma realidade inscrita no corpo”. Jean –Rene vê na masturbação uma tripla função: fisiológica, compensatória e lúdica, resumindo assim a opinião comum dos sexólogos.
A masturbação na infância é importante, já que equivale à auto-exploração do corpo, mas muitos não aceitam isso com neutralidade. O peso de tantos anos da masturbação associada ao pecado e à doença leva muitos pais -  até os que se consideram livres de preconceitos – a se sentirem incomodados quando os filhos manipulam seus próprios órgãos sexuais, e geralmente procuram desviar a atenção da criança para outros interesses, o que de qualquer maneira deixa nela o registro de que essas atividades não é bem aceita.
Na puberdade, o desejo sexual é muito intenso tanto no menino quanto na menina. Como existe mais permissividade para toda expressão sexual masculina, a masturbação do menino é bem mais aceita do que a da menina. Em um estudo sobre a sexualidade adolescente feito em 1981, 80% dos meninos e 59% das meninas de 18 anos afirmaram se masturbar; em razão disso, algumas mães exigiam que suas filhas dormissem com os braços para fora das cobertas para evitar a masturbação. Entretanto, a masturbação na adolescência é vista pelos sexólogos como uma prática fundamental pela satisfação sexual na vida adulta, por permitir um auto conhecimento do corpo, do prazer e das emoções. “As adolescentes femininas que se iniciam na masturbação também apresentam o orgasmo clitoridiano, sendo isso um sinal de evolução sexual sadia. Mulheres multi orgásticas investigadas na nossa clínica normalmente iniciavam a masturbação antes do casamento e durante a adolescência.
Mas muitas mulheres se sentem envergonhadas e culpadas devido a uma educação que lhes ensina que o interesse e o desejo sexual pertencem ao sexo masculino. Ao não conseguirem controlar seus próprios desejos, muitas se sentem indignas, imaginando que só elas se masturbam, e não contam nem para a melhor amiga. As mulheres que conseguem romper com esses tabus muitas vezes utilizam variados objetos para se masturbar, estimulando a vulva ou a vagina. São vibradores, pênis artificiais, bolas ben-wa e outros, vendidos em sex-shops, além do cabo da escova de cabelo, ou mesmo legumes e outros objetos macios.
Barry Mc Carthy afirma em seu livro sobre a sexualidade masculina que, devido às advertências que todos recebem desde crianças e devido à reputação que a masturbação tem de pobre substituto das relações sexuais, a maioria das pessoas se sente culpada quando se masturba. Contudo, isso não impede que todos se masturbem. A prova é que 95% dos homens, incluindo os casados, masturbam-se. Mas a culpa impede que se desfrute o máximo, não permitindo que a masturbação seja a experiência libertadora e satisfatória que ela pode ser. Há uma insistência em afirmar que essa prática tem uma única finalidade: aliviar a tensão acumulada. Então, o ato é feito ás pressas. Quase ninguém se concede a oportunidade de perceber que a masturbação, longe de ser vergonhosa necessidade, é na verdade uma das melhores maneiras possíveis de se aprender sobre as próprias reações sexuais e de se aumentar a sensibilidade à estimulação sexual. Por essa razão, ele recomenda uma masturbação lenta, sensual e envolvendo o corpo todo.
Na terapia do sexo para o tratamento das disfunções orgásticas, a masturbação é o elemento principal para capacitar a mulher  a ter o primeiro orgasmo. A instrução de que a mulher se masturbe quase sempre gera ansiedade nas pacientes que aprenderam a considerar a masturbação algo perigoso e vergonhoso. A psicoterapia paralela se propõe tratar desses preconceitos, enquanto ela é aconselhada, em condições de muita segurança, a emprenhar-se nessa atividade. Sugere-se, por exemplo, que ela se masturbe manualmente, mas se a princípio, a paciente deve masturbar-se manualmente, mas se a estimulação assim produzida não for suficientemente intensa para ter orgasmo, é aconselhada a usar um vibrador.
Em seu estudo sobre a sexualidade feminina, Shere Hite constata que a masturbação tem aspectos favoráveis – orgasmos fáceis e intensos, fonte inesgotável de prazer – mas, infelizmente, todos sofremos alguma influência de uma cultura que nos diz que as pessoas não devem se masturbar. Atualmente, tornou-se aceitável que as mulheres tenham prazer no sexo, desde que preencham seus papéis femininos – dando prazer aos homens e nunca tendo prazer sozinhas. Hite acredita que talvez no futuro as mulheres possam ter o direito de ter prazer na masturbação também, como declarou uma de suas entrevistadas: “A importância da masturbação é que se masturbando você se ama e cuida de si mesma totalmente, numa forma natural de relacionamento com seu próprio corpo. È uma atividade normal que deveria logicamente fazer parte da vida de qualquer mulher.”
No estudo de Hite sobre a sexualidade masculina, em que, foram entrevistados 7239 homens entre 13 e 97 anos de idade, 99% declararam que se masturbando, sendo que quase todos, casados ou solteiros, tendo ou não uma vida sexual ativa, disseram que a masturbação era algi constante em suas vidas. Mas a maioria se sente culpada e incerta sobre a masturbação, ao mesmo tempo que gosta imensamente -  muitos têm seus orgasmos mais fortes, fisicamente, durante a masturbação. Os homens se sentem mais livres para se estimular da maneira que gostam e quase nenhum conta a outras pessoas que faz isso. Muitos homens, declaram que os orgasmos durante a masturbação eram fisicamente mais intensos, já que não havia pressões de desempenho, e eles tinham liberdade de se dar exatamente a estimulação adequada.
Hite conclui que a masturbação é uma atividade sexual muito importante e válida. Os homens falaram dela com entusiasmo e descreveram os intensos orgasmos experimentados. Com a masturbação, eles conseguem a estimulação que geralmente não obtêm de outra pessoa, como a anal, nos testículos e, talvez, também uma estimulação emocional ou psicológica. Na medida em que aos homens só é permitido um papel na relação, as fantasias criadas na masturbação podem ser uma maneira de desfrutar outro papel, a parte que falta. Ser completamente passivo.

Fonte:

Lins, R. N. A Cama na Varanda: arejando novas idéias a respeito de amor e sexo.Novas tendências.ed rev e ampliada.Rio de Janeiro:BestSeller, 2007;360-368.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Tabus e Crendices Sexuais

O conceito de tabu encerra duas noções fundamentais: a idéia do proibido e a sanção para o transgressor.
As restrições do tabu são muito diferentes das proibições religiosas, uma vez que não emenam de um ensinamento divino. Elas mantêm algumas relações com crenças mágicas primitivas, mas proíbem por si mesmas.
Entre os tabus, é interessante observar os do tipo “faz mal” (faz mal ter relações durante a menstruação”; faz mal ter relações durante a gravidez”, etc). Ninguém explica cientificamente por que “faz mal”.
A mesma racionalidade se observa nas crendices e superstições. São crenças populares absolutamente sem fundamento, algumas até ridículas, mas que se sustentam e se transmitem pela força do “todo mundo sabe” ou “todo mundo acredita”. Alimentadas pela irracionalidade terminam por se transformar em certezas.
Uma característica interessante é que a crendice nunca é fato isolado, mas está inserida em uma verdadeira malha na qual várias crendices menores se alimentam, ao mesmo tempo que são retroalimentadas pelas próprias superstições secundárias a que deram origem.
O observador atento constata que muitas crendices giram em torno de um pressuposto cultural nuclear. Um desses núcleos é a identificação do sexo com a reprodução, isto é, o reconhecimento de que a atividade sexual só é pertinente se estiver a serviço da procriação. Essa reprodução cultural, revigorada pela tradição judaico-cristã teve sua origem em crenças bastante primitivas.
Em certas civilizações muito antigas, sobretudo em povos agrários, a identificação do sexo com a reprodução era um fator importante para a própria sobrevivência do grupo. A atividade sexual representava não só a esperanças de novos membros para a lavoura, como também de novos defensores da terra contra a agressão das tribos vizinhas. O sexo era, portanto, o caminho para o poder e para a força do grupo. O sêmen (semente) era precioso tesouro que não podia ser desperdiçado. Entende-se assim por que a masturbação era considerada detestável pelos povos agrários, sujeitas a todos os tipos de sanções, inclusive reforçada pelas crendices condenatórias, muitas das quais sobrevivem até nossos dias.
Relacionada com a identificação entre sexo e reprodução está a deificação do pênis como símbolo da fertilidade.
Nos povos antigos havia um verdadeiro culto fálico. Representações penianas eram usadas pelas mulheres como talismã protetores contra a esterilidade e veneradas pelos agricultores como propiciadoras de boas colheitas.
Descobertas arqueológicas têm evidenciado que eram comuns, nas civilizações antigas, representações de homens com falos eretos. Na Grécia, essas reminiscências culturais se evidenciaram com criatividade.
A crendice do pênis como símbolo de força e poder impregnou o pensamento moderno. Esse suporte mítico é uma das fontes em que se alimenta a pretensa superioridade masculina.
Muita gente acredita que o tamanho dos órgãos sexuais é fundamental para o êxito erótico para as pessoas. Embora a crença mítica tenha se fixado mais no homem do que na mulher, ela também se generalizou entre o sexo feminino em comentários do tipo: “mulher sexy tem peitos grandes”, “quanto maior o clitóris, maior a responsividade sexual”, etc.
No homem a crendice se evidencia de modo dramático, deixando claro que o indivíduo é tanto mais “macho”quanto maior for seu órgão genital: “as pessoas que têm pênis bem dotados são muito mais capazes de satisfazer sexualmente suas parceiras”. Procura-se correlacionar o tamanho do pênis comas dimensões  de outros segmentos do corpo,  em particular o pé e o nariz.
Vale esclarecer que nada tem a ver com o tamanho do pênis flácido com suas dimensões em ereção. Pênis eretos de proporções semelhantes podem, em estado de flacidez, possuir tamanhos diferentes. Não se pode diagnosticar as dimensões do falo sem antes vê-lo em ereção, o que nem sempre é desejável em ambiente de consultório.
Vivenciando todas essas crendices, um indivíduo com pênis pequeno se evidentemente considera menos viril. A constatação da sua “inferioridade” física o aprisiona numa constrangedora e vergonhosa situação que o leva a evitar relações sexuais, quando determina disfunções eréteis. Atualmente, afirma-se com muita graça que não é aquilo que o homem tem lhe atribui importância, mas o que ele faz de importante com aquilo que tem”.
O papel terapêutico do esclarecimento é o melhor remédio, embora quem está preso nas malhas do ilógico, nem sempre seja receptivo para a aceitação do pensamento científico.
É muito comum observar homens, alguns inclusive de indesejável posição intelectual, que, aprisionados a crenças supersticiosas, enchem de frustrações e derrotas sua vida sexual.
Embora o culto às dimensões genitais seja prerrogativa de algumas pessoas, sabe-se que, em geral, os pênis mais longos não são os mais desejáveis pela maioria das mulheres.
No intróito vaginal e, sobretudo, na região clitoridiana, existe grande quantidade de terminações nervosas sensitivas captadoras do estímulo mecânico e capazes de eliciar o reflexo orgásmico. Nesse sentido, não é o comprimento de pênis o que importa; aliás, quando excessivamente longo, pode forçar dolorosamente os fundos de sacos vaginais, sobretudo em portadoras de retroversões uterinas. Os conhecimentos da anatomofisiologia sexual demonstram que a vagina é capaz de se adaptar a qualquer dimensão peniana e que o atrito no clitóris e no intróito vaginal propicia mais prazer. A intromissão do pênis, seja qual for seu tamanho, provoca distensão das ninfas e, consequentemente, do capuz clitoridiano, que é repuxado para baixo.
A movimentação rítmica da pelve, deslocando as ninfas lateralmente sobre o corpo de glande clitoridiana, promove o atrito excitante. Se fosse necessário valorizar as dimensões genitais. Diríamos que o pênis mais grosso, e não os mais longos, produzem os melhores efeitos mecânicos.
A identificação da sexualidade com a reprodução originou também outras crendices secundárias. Uma delas é a de que “mulher grávida não tem desejo sexual”. Trata-se de uma generalização similar à afirmação de que a “esterilização diminui a apetência dos homens e mulheres” ou à de que “cada indivíduo tem reservado para si uma quota de experiências sexuais que, ultrapassada, faz com que a possibilidade de procriar, a existência da sexualidade nesses indivíduos é considerada anormal e fantástica.
Partindo da importância fálica, há também uma enorme variedade de crendices, como a de que “a mulher não possui as mesmas necessidades sexuais do homem” ou sua variante explicitamente machista: “um homem não se satisfaz com uma só parceira”. Essa superstição encontra respaldo, em parte, no fato de que o homem tem seu desejo claramente evidenciado pela ereção, e em parte pela “prova” analógica de que, entre os animais, as fêmeas só aceitam relações em épocas apropriadas, enquanto o macho pode tê-las a qualquer tempo.A analogia é infeliz. A sexualidade do homem  é essencialmente cultural e muitas das características apontadas como “inatas” à condição feminina são produtos culturais da história da humanidade.
Depois dos trabalhos pioneiros de Masters e Johnson, demonstrou-se que os homens e mulheres possuem as mesmas potencialidade responsivas e que fisiologicamente a ausência do período refratário na resposta sexual feminina confere até certa vantagem às mulheres, aumentado-lhes a possibilidade repetitiva de atos sexuais sucessivos, o que ocorre com os homens.
É interessante observar como as crendices procuram um caminho a sobrevivência quando se vêem ameaçadas. Isso pode ser exemplificado pelos diferentes desdobramentos do duplo padrão sexual tradicional que, na tentativa de se revigorar, se transmuda em novas crendices.
Assim, por exemplo, alguns homens, partem da concepção de que, tendo a mulher conquistado sua liberdade sexual, ela deverá estar sempre pronta e apetente para qualquer parceiro. É uma forma velada de sobrevida da mítica “superioridade” do homem: em lugar de servir a um senhor só, ela deverá estar disponível a servir muitos.
Aliás, dos movimentos de emancipação da mulher nasceram várias crendices modernas. Uma é a de que é necessário ter sempre “orgasmos simultâneos”. A mutualidade, embora desejável, não é norma. O comum é que em nada torna o ato sexual insípido ou imperfeito, desde que o encontro erótico propicie a realização mútua.
O orgasmo feminino tem sido a principal fonte de superstições sexuais modernas. A afirmativa de que as mulheres podem ter orgasmos sucessivos, perfeitamente demonstrada pelo casal Masters e  Johnson, tem gerado uma busca compulsiva do reflexo orgásmico múltiplo, o que leva a surpimi-lo por completo. Confunde-se potencialidades com necessidades. É importante fixar que o orgasmo é sempre desejável, mas é o prêmio de quem de entrega  ao prazer de gozar o momento sexual sem ansiedades, cobranças ou expectativas. Um ato sexual pode ser muito mais gratificando, embora não necessariamente orgásmico, se cada uma dos parceiros estiver comprometidos em se entregar ao carinhoso enlevo da maior forma de comunicação humana.

Fonte:

Cavalcanti R, Cavalcanti M. Tratamento da Inadequações Sexuais. 3.ed. São Paulo:Roca, 2006.

domingo, 5 de dezembro de 2010

As expectativas do amor no casamento

     Assim como na nossa cultura acredita-se que só é possível estar bem vivendo uma relação amorosa, o casamento por amor passou a ser sinônimo de felicidade e, por conseguinte, uma meta a ser alcançada por todos.
     A idéia de felicidade conjugal depende da expectativa que se tem de casamento. Algumas décadas atrás, uma mulher se considerava feliz no casamento se seu marido fosse bom chefe de família, não deixasse faltar nada em casa e fizesse todos se sentirem protegidos. Para o homem, a boa esposa seria aquela que cuidasse bem de casa e dos filhos, não deixasse nunca faltar a camisa bem lavada e passada e, mais que tudo, mantivesse sua sexualidade contida. Um casal perfeito: uma mulher respeitável e um homem provedor.
     Hoje os anseios são bem diferentes e as expectativas em relação ao casamento tornaram-se muito mais difíceis, até  mesmo impossíveis de ser satisfeitas. As pessoas escolhem seus parceiros por amor e esperam que esse amor e o desejo sexual que o acompanha sejam recíprocos e para a vida toda. Aí, deparamos com uma questão crucial. O amor até que a morte nos separe se torna cada vez mais inviável.
     A entrada do amor romântico faz do casamento o meio para as pessoas realizarem suas necessidades afetivas. Idealiza-se o par amoroso e, para manter essa idealização, não se medem esforços, o que acaba sobrecarregando a relação entre os cônjuges. Imagina-se que no casamento se alcançará uma complementação total, que as duas pessoas se transformarão numa só, que nada mais irá lhes faltar e, para isso, ficam implícito que cada um espera ter todas as suas necessidades pessoais satisfeitas pelo outro.
     Numa relação estável, é comum as pessoas se afastarem dos amigos e abrirem mão de atividades que anteriormente proporcionavam amigos e abrirem mão das atividades que anteriormente proporcionavam grande prazer. Um deve ser a única fonte de interesse do outro e, portanto, tudo o mais é dispensável. Esse comportamento é aceito socialmente como natural, tanto que, num grupo de amigos, quando a ausência de uma membro é sentida, ouvimos explicações do tipo: “É , ele sumiu. Depois que casou nunca mais deu notícias.”
     Esse treinamento para se acreditar na complementação total com o outro geralmente se inicia antes do casamento.
     O ideal do par amoroso que está sempre junto, que se completa em tudo, em que um é a única fonte de gratificação do outro, atenua por um tempo o temor desamparo. Mas, para manter essa situação, são feitas muitas concessões e a conseqüência inevitável é um acúmulo de frustrações que torna a relação no casamento sufocante.
    E. Lê Garrec sublinha que o casal aniquila a pessoa humana, numa confusão alienante: “O ‘eu’ desaparece, absorvido, afogado no ‘nós’. Porque o casal não se permite essa parte de solidão indispensável à existência do indivíduo.
     Na busca de estabilidade e segurança afetiva qualquer preço é pago para evitar tensões que decorrem de uma vida autônoma. Assim, o desejo de conviver com intimidade se confunde com a ânsia de manter a estabilidade, levando as pessoas a suportar o insuportável. Tentando justificar sacrifícios ou frustrações pessoais, cria-se um mundo fantástico em que defesas como a negação e a racionalização são acionadas para que continue a viver uma relação idealizada, distante do que se ocorre na vida real.
     Quanto mais concessões são feitas para se manter o casamento, mais hostilidade vai surgindo em relação ao outro. Hostilidade, na maioria das vezes, inconsciente, que vai minando gradativamente a relação, até torná-la insustentável. “Assim, é justamente das pessoas mais tolerantes e dóceis que podemos esperar as ‘viradas de mesa’ mais intempestivas e radicais.
     O esforço para corresponder às expectativas depositadas no casamento pode superar o limite da capacidade de conceder e fazer optar pelo fim da relação. Em outros casos, o tédio e a monotonia da vida a dois, em função da dependência emocional que se tem do outro, podem levara uma atitude de resignação e acomodação.

Fonte:
  Lins, R. N. A Cama na Varanda: arejando novas idéias a respeito de amor e sexo: novas tendências.ed rev e ampliada.Rio de Janeiro:BestSeller, 2007:175-180.

Casamento

     Dentro do útero da mãe o indivíduo obtém a satisfação imediata de todas as suas necessidades.        Desconhece a fome, o frio, a sede e a falta de aconchego. Mas nasce. Precisa respirar com os próprios pulmões, reclamar a fralda molhada, desesperar-se com a cólica. É tomado por profundo sentimento de falta. Uma angustiante sensação de desamparo o invade. Sem retorno ao estágio anterior, isso o acompanhará por toda da vida.
     Ao nascer, ele é introduzido num mundo com padrões de comportamento claramente estabelecidos. Inicia-se, assim, o processo de socialização. Os desejos espontâneos são gradualmente substituídos pelo que se aprende a desejar, e o indivíduo passa a se comportar e agir de acordo com a expectativa social. As singularidades não mais existem. O condicionamento cultural impõe como única forma de atenuar o desamparo uma relação amorosa fixa e estável: o casamento. Tenta-se reaver o paraíso simbiótico que se tinha no útero da mãe. Ilusão que dura pouco, que não sustenta na realidade de uma vida a dois, cotidiana.
     Aprisionadas pela tirania de uma moral que determina o certo e o errado, o bom e o mau, pessoas solteiras, separadas ou viúvas buscam no casamento sua parcela de felicidade. A mudança na forma de pensar e de viver gera medo e ansiedade, sendo mais fácil optar pelo já conhecido, apesar das frustrações.      Contribuem para isso a família, os amigos, a escola e os meios de comunicação. Não existe novela sem casamento feliz no final.
     Quase todos os homens e mulheres, desejam não só casar, como se submeter com resignação a muitas outras normas sociais de conduta, a maioria incompatível com suas aspirações mais legítimas. Fazer escolhas realmente livres não é simples. Seu preço é fixado no alto pela sociedade, que mantém unidos os fiéis, á custa do sacrifício individual.

 Fonte:
 Lins, R. N. A Cama na Varanda: arejando novas idéias a respeito de amor e sexo: novas tendências.ed rev e ampliada.Rio de Janeiro:BestSeller, 2007:170-172.